terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Memória Escrita

Foi lindo. Lembro hoje com riqueza de detalhes todos os nossos momentos juntos, por mais que tenham sido poucos. Lembro da nossa conversa, na época do MSN ainda... Aquelas bobagens de adolescente, uma vergonha escondida num sorriso, um olhar sincero e interessado.
Lembro da primeira vez que nos vimos... Você finalmente concordou em me encontrar pessoalmente... Eu preferi um lugar público mas você insistiu em algo mais único então fomos para casa. Você chegou todo tímido e vermelho de vergonha na sua bicicleta prata com garupa e uma mochila preta nas costas. Um típico garoto do ensino médio.
Cabelo escuro cortado baixo, boca aveludada, aparelho nos dentes, olhos castanho escuro, pele broseada e corpo pré definido... Sim, você fazia natação perto de casa e nem sabia.
Foi tão engraçado. Você não sabia o que fazer eu não sabia onde sentar... Acabamos apenas assistindo um filme muito extranho o qual não recordo o nome, só sei que tem a ver com apartamento alguma coisa. Nenhum diálogo, eu achando que você não havia gostado de mim e VC o mesmo. Foi quando meu celular vibrou e eu vi uma SMS seu.
Oi. Ta tudo bem?
Extranho, duas pessoas no mesmo ambiente conversando via SMS. Mas de fato, era o único modo de conversarmos sem ter que nos encarar. Sem ter que olhar um no olho do outro, o único modo de não ficarmos nervosos e vermelhos.
Era umas cinco horas quando você foi embora. Nessa altura haviam chegado mais pessoas em casa e você se sentiu acoado. Achei que nunca mais veria você mas por incrível que pareça, foi só você chegar em casa que mandou outro SMS. Foi a primeira vez que fiquei tão ansioso por contatos seus.
Uma conversa um pouco longa... Uma ligação que nunca havia acontecido agora tinha se tornado realidade. Marcamos mais um filme para o outro dia.
Ah, dessa vez foi um milhão de vezes mais fácil. Você chegou sorrindo e me deu um beijo do rosto, então senti pela primeira vez sua pele colada na minha. O sorriso, o perfume, tudo o que se esperava.
Um abraço, caloroso e prazeroso, senti quando não esperava, e um pedido de desculpas também pela babaquisse de outrora.
Sentamos no mesmo sofá, comemos na mesma tijela, pipoca com gosto sapeca e tomamos no mesmo copo, coca cola com gosto de marotagem. Dessa vez me lembro o nome do filme, todo mundo em pânico. Era ridículo mas fazia você rir então estava tudo bem, e passou tão rápido que nem vimos. Era tão bom estar perto de você.
Foi aí que, para não ficarmos sem graça de novo e perder a conversa, você me mostra a coleção de séries que você era viciado na época. The walking dead. Perguntei sobre o que era e você me disse que era sobre zumbis, só esqueceu de dizer que eles era feios. A cada dois segundos eu dava um pulo ou escondia o rosto atrás de você, enquanto você se desmanchavam em risos. Sim, eu estava com medo mas depois, era só pra poder te tocar, estar mais perto do teu corpo quente e forte.
Quando percebi, já estávamos brincando e você me imobilizando. Confesso agora, você nunca teria me imobilizado, nunca; deixei que acontecesse pra almentar o seu ego. Parecia um sonho. E quando vimos já estávamos no chão, você me beijando e eu pensando que aquilo era um sonho.
Foi a melhor tarde da minha vida depois de muito tempo. Mas como tudo o que é bom dura pouco, já estava na hora de você ir embora. Mas dessa vez não fiquei com medo que não voltasse. Tinha certeza que você em pouco tempo voltaria. Mas isso nunca mais aconteceu.
Não me ligou mais, nem atendeu meus telefonemas, não mandou mais SMSs nem emails nem sinal de fumaça. Foi quando percebi que você já estava em outra e tudo o que vivemos foi em vão.
Hoje num futuro longincuo ainda me lembro cada detalhe, cada cheiro, cada sabor, cada imagem, cada som. Lembro-me inclusive a dor que senti e que hoje já não existe. Assim como nós também.
Escrevo isso não para lhe recordar, mas para poder esquecer. E daqui a um tempo, quando estiver velho e cansado, sem nada de importante para fazer, pegar os velhor escritos no sotom, as cartas talvez nunca abertas já empoeiradas e corroídas pelo tempo e tentar recordar de uma passado, de um nós que nunca existiu, só na minha mente e no meu coração, pois pra você, tudo não passou de uma brincadeira, que quando se cansa, para-se e não há mais memórias.


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